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Um meeting na parvonia: poemeto escripto num canto

Anonymous · Public domain text

2,812 words · about 12 min to read

About this edition

The text of Um meeting na parvonia: poemeto escripto num canto comes from Project Gutenberg e-text #20495. It is in Portuguese and public domain in the United States. Project Gutenberg’s header and license text are removed, and RedLectern sets the text out for reading on screen; no words of the book are rewritten or summarized. More formats (EPUB, Kindle) · How RedLectern is built

About this book

Author
Anonymous
Language
Portuguese
Subjects
Poetry
Length
2,812 words · about 12 min
Sections
59 reader sections · Table of contents

 

Contents (59)
  1. Opening under 1 min
  2. I under 1 min
  3. II under 1 min
  4. III under 1 min
  5. IV under 1 min
  6. V under 1 min
  7. VI under 1 min
  8. VII under 1 min
  9. VIII under 1 min
  10. IX under 1 min
  11. X under 1 min
  12. XI under 1 min
  13. XII under 1 min
  14. XIII under 1 min
  15. XIV under 1 min
  16. XV under 1 min
  17. XVI under 1 min
  18. XVII under 1 min
  19. XVIII under 1 min
  20. XIX under 1 min
  21. XX under 1 min
  22. XXI under 1 min
  23. XXII under 1 min
  24. XXIII under 1 min
  25. XXIV under 1 min
  26. XXV under 1 min
  27. XXVI under 1 min
  28. XXVII under 1 min
  29. XXVIII under 1 min
  30. XXIX under 1 min
  31. XXX under 1 min
  32. XXXI under 1 min
  33. XXXII under 1 min
  34. XXXIII under 1 min
  35. XXXIV under 1 min
  36. XXXV under 1 min
  37. XXXVI under 1 min
  38. XXXVII under 1 min
  39. XXXVIII under 1 min
  40. XXXIX under 1 min
  41. XL under 1 min
  42. XLI under 1 min
  43. XLII under 1 min
  44. XLIII under 1 min
  45. XLIV under 1 min
  46. XLV under 1 min
  47. XLVI under 1 min
  48. XLVII under 1 min
  49. XLVIII under 1 min
  50. XLIX under 1 min
  51. L under 1 min
  52. LI under 1 min
  53. LII under 1 min
  54. LIII under 1 min
  55. LIV under 1 min
  56. LV under 1 min
  57. LVI under 1 min
  58. LVII under 1 min
  59. LVIII under 1 min

Continue:

Opening

UM MEETING NA PARVONIA

UM MEETING NA PARVONIA

POEMETO ESCRIPTO N'UM CANTO

LISBOA TYP.--LARGO DOS INGLEZINHOS, 27, 1.^o 1881

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I

Oh! Musa sacripanta dos Vardascas, Onzeneira, bulhenta, peralvilha, Bachante de bordeis, deusa de tascas, De Momo e da Discordia a vêsga filha, Empresta-me o teu estro, põe-me em lascas, Regateira infernal, vil farroupilha, A mente, e, qual fusil na pederneira, Accende-m'a com chamma de fogueira.

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II

Preciso de fatal inspiração, Não bebida na fonte de Hypocrene, Como o enfermo que em grave indigestão Carece vomitar, ou tomar séne. Acode-me com o estro de febrão, Que delire em linguagem torpe, infrene. Oh! Musa, qual Medéa ardendo em furias, Incita-me ás poeticas luxurias.

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III

Dá-me influxo mordaz, horripilante, Como outr'ora abrasou um Aretino, Esse fogo infernal, que teve o Dante, Ou a graça sequer de Tolentino; Mas tu, oh! Musa reles, e farçante, Não me entruges o plectro de mofino; Se me negas o dar-me engenho e arte, Nem mais um decilitro hei de pagar-te.

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IV

E seja o canto meu feroz, medonho, Que similhe ao uivar do voraz lobo, Ao crocitar dos corvos; enfadonho Como o sorrir alvar de informe bobo, Que a tratar o assumpto, que proponho, Requer-se petulancia, e tal arroubo, Que o leitor, deliquido n'um desmaio, Me pareça assombrado pelo raio:

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V

--N'um domingo de março, pela estrada Que de Arroyos conduz á Panasqueira, Vão magotes de povo de ranchada A provar o bom vinho, e a petisqueira Do louro peixe frito e da salada, Que na Perna de Pau a taberneira Lhes prepara; e com litros, comesanas, De lá voltam com grandes carraspanas.

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VI

Já burbulham as arvores, e as flores Engrinaldam os prados de Flora; As aves gorgeando os seus amores Alternam o chiar da triste nora. Correm montes e valles caçadores Co'as matilhas de cães, mas em má hora, Que as pintadas perdizes e coelhos Levam ventos nas azas, nos artelhos.

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VII

O dia estava brusco, e os pardaes Chilreiam festejando o solsticio Da vital primavera; nos curraes Muge a vaca saudosa ao beneficio Da pavêa; espirram os catharraes. O povo é convidado p'ra um comicio, Onde avido concorre p'ra tratar D'uma ideia, que ha muito anda no ar.

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VIII

Bôa gente de artistas, operarios, Crestada pelas lavas do trabalho, Vivendo das migalhas dos salarios Que do fisco escaparam; rebotalho Condemnado a subir asp'ros calvarios, Que busca naipe ser no vil baralho, D'onde querem tirar valetes, reis, E trumphar co'o direito só das leis.

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IX

Vão anchos, vão alegres na esp'rança D'um futuro feliz, que os seus tribunos Lhes promettem de ha muito. Essa alliança Da justiça e poder, fins opportunos Que á força popular lhes affiança O livral-os das unhas dos gatunos, Que roubando a nação se fazem nobres, Vampiros a chupar o sangue aos pobres.

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X

É grande a multidão ali trazida: Alguns por curiosos se conduzem, A outros a cobiça mais convida, Que muitos com promessas se reduzem; E quantos com a mente prevenida De utopias, que o animo seduzem, Com a grata illusão de vir a ser Povo e rei de si mesmo no poder.

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XI

Suspenso vê-se á porta da taberna Um ramo de loureiro; mais em baixo Por symbolo pintaram-lhe uma perna E um letreiro:--«Bom vinho do Cartaxo, Peixe frito, e as iscas á moderna»; E de copo na mão vê se um borracho Apontando p'ra a quinta, onde em devesas Lá sob os parreiraes estão as mezas.

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XII

A gente á porta embica n'um montão, Inquieta formigando n'um bulicio, Como em dia de roda ao Campeão Concorre por esp'rar o beneficio D'uma sorte feliz, d'um alegrão. Assim acode ali, e no comicio Apanha, triste sorte, muita chuva, Muita parra, coitada, e pouca uva.

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XIII

Escolhem d'entre a turda in-continente Um quidam consid'rado dos mais doutos, Que occupando o logar de presidente Ao sentar-se salvou com tres arrotos; E com voz mal toada, intermittente, Vae fallando, e cuspindo perdigotos; Assim impertigado estende a mão: «Eu abro, meus senhores, a sessão.»

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XIV

E logo sobre um banco alevantado Um homem vocifera, gesticula, Os ministros ataca, e de zangado, Em verrina, que mais descamba em chula, Invectiva o imposto, e o tratado Que aprovára das côrtes a matula. --Embora, oh! patria minha, luctes, arques; Não consintas vender Lourenço Marques!

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XV

«São justas nossas queixas, continua O fogoso orador: heis de soffrer Um inepto governo, que pactua Co'a deshonra, e que falta ao seu dever? Que batalhas campaes dá pela rua Acutilando o povo a seu prazer? Abaixo ministerio tão funesto! Assignae, cidadãos, este protesto.»

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XVI

E logo se empoleira outro orador Compondo o rosto alvar; e ancho de si Exclama com prosapia:--«Salvador Do rei, da patria, affirmo agora aqui, Que só o meu partido bemfeitor Vos trará f'licidade... Potosi É seu, e tem credito bastante P'ra sair, d'esta crise, triumphante.»

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XVII

«Sou regenerador, eu digo-o ufano; O bem do povo é sempre o nosso alvo; Aborreço o governo que é tyranno. Dos tributos, pranchadas sereis salvo; Quem comigo votar não tema engano.» Mas n'isto berra alguem:--«Oh seu papalvo, Já todos conhecemos vossas manhas: O povo não engole taes patranhas.»

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XVIII

«É falso! não consinto se pretenda Menoscabar quem tanto se acrisola; Mormente o bom ministro da fazenda, Que, macio nos tributos, não esfola.» --«Fóra! fóra! seu traste d'encommenda! Gritou o povoreo, este é granjola!» E o sucio, por temer as consequencias, Escondeu-se nas mudas reticencias.

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XIX

--«Eu sou republicano cá de dentro!» Disse um tal agarrando um pedregulho. --Fóra, fóra!--clamaram lá do centro. Crescera a vozearia e o barulho: --«Ah! safa, seu canalha, que o desventro! Já se calle, ou a boca lhe atafulho! Lhe brada, faca em punho um vil fadista: Acabemos com a raça realista.»

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XX

Tal quando ronca o mar em tempestade, Revolvido por grande furacão, E em montanhas de espuma corre, invade Ainda a mais alt'rosa embarcação; Ou quando no aduar em feridade De assalto abrindo as garras o leão Percorre a empolgar seu inimigo, Assim o orador se viu em p'rigo.

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XXI

Mas n'essa confusão o paroleiro Se esgueirava, fugindo com prudencia; A mesa assalta um lépido barbeiro, Que sóbe desde logo á presidencia. Muitos gritam:--«Os reis custam dinheiro Que sae dos nossos bolsos; é d'urgencia Acclamarmos da plebe a sob'rania.» E de vez foi crescendo a gritaria.

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XXII

--«A palavra! a palavra, cidadão!» Todos pedem, mas logo o presidente Tocava a campainha, que o tacão Lhe impede ser ouvido d'essa gente. --«Ordem, ordem!... silencio! á votação Vou propor, se o club m'o consente, Artigos do contrato federal, Que abula a realeza em Portugal.

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XXIII

Que futuro medonho nos aterra!.. Funccionarios, ministros, titulares Absorvem e devoram nossa terra! Tropeçamos ahi co'os militares Sem termos nem sequer sombras de guerra, E sustentamos, nós, os populares Um deficit a crescer, e os publicanos Tributos a lançar todos os annos!

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XXIV

E caem os partidos, sempre os mesmos Do governo os mandões, a mesma escola; O estado a soffrer graves tenesmos, Só nos resta o pedirmos inda esmola; A fazenda consome-se em torresmos, E vâmos n'um recúo-caranguejola; Somos ricos e grandes de comedia. A triste bancarota alguem impede-a?

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XXV

O supremo poder nas mãos d'um homem, Que póde ser um tolo, ou um tyranno! A historia dos reis, que os tempos somem, Consultae, e tereis o desengano. Providencias energicas se tomem Contra o nosso porvir, e o grave damno Que os despostas causaram a seus povos; Meus principios são justos, e são novos.

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XXVI

É um rei liberal, como é a pella Na mão d'um jogador; do ministerio Espera para a rubríca a chancella E faz o que lhe dizem, sem criterio Se a coisa é de momento ou bagatella; Pois se quer governar, sem refrigerio Dos partidos depostos, soffre assomos, Qual juiz de arraial co'os seus mordomos;

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XXVII

Sempre ás cristas, e sempre engalfinhados, Cubiçando os poleiros das nações, De ministros, de pares, deputados, De camaras, de empregos; ambições Porque morrem de amor e de cuidados, Não lh'importam... (que grandes maganões!) As venturas do povo... em palavrorios, Sobem, descem com vivas, foguetorios.

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XXVIII

Portugal anda ha muito n'estas crises; Na terrivel pressão de tantas mós, Vae moendo farinha p'ra os felizes Que contentes lhe cantam--Venha a nós! Mas se um dia a revolta alçar a voz Em delirios cruentos, nos paizes Onde endémica lavra a devorite, É p'ra logo applicar-lhe dynamite.»

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XXIX

«Cidadão, vou entrar n'esta palestra E mostrar-vos, que a natureza é sabia: O cortiço é communa, a abelha mestra De governo perfeito a ideia acaba-a. Economica, vêde, não sequestra Com tributos, ardis, com manha e labia Do seu povo a uberosa dotação; Aprendei o que ha bom n'esta lição.»

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XXX

--«Bravo, sô Zé Mathias... é bem dito! O rei é um chupista... e apoiado... Diz elle que é divino... é um maldito, Que as rendas dizimando vae do Estado.» Com palmas um cantava o pirolito, E outro com a banza bate o fado. --«Ordem, ordem! berrava o presidente; Assignem o protesto, que é urgente.»

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XXXI

«Se em nascimento e morte são iguaes Os homens, o que importam distincções? Porventura tem rei os animaes, Duques, condes, marquezes e barões? Tem ministros, soldados, generaes? Um thesouro com praga d'inscripções? Ha fórma de governo, que reuna Maiores bens, do que a provida communa!

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XXXII

Silencio... Não tem ricos, não tem nobres; Permitte a cada um o que é preciso. Portugal, é mister, que tu recobres Teus foros sociaes, sem prejuizo Dos que nascem... nem haja humildes, pobres; Sejam nossos brazões: honra, juizo; A terra fique livre, os bens communs, E p'ra todos acabem os jejuns.

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XXXIII

Bem nos basta aturar o rei do dia, Que d'inverno a soslaio nos visita, E de verão nos abrasa em calmaria. Todo o rei é verdugo e parasita, Que as entranhas do povo, qual harpia, Molesta d'extorsões, opprime, irrita; Por este decilitro vos protesto Que o governo do rei é o mais funesto.

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XXXIV

Vêde desgraça tanta... esses pedintes, Co'os filhinhos ao collo as tristes mães, E nós d'essas lamurias sendo ouvintes Sem ter para lhes dar soccorro e pães; Da miseria chegaram aos requintes Que os ossos vão roendo como cães E os ministros reunem na Ajuda A pedir á nação que lhes acuda.

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XXXV

Eu vos juro, valentes patriotas Que buscaes alluir a monarchia, Que havemos de enforcar os agiotas E aos ricos... oh! que grande montaria.» --«Muito bem! bravo! viva!» Entre risotas Festejavam do povo a sob'rania, E todos entoando a Marselhesa Bradaram:--«Bota abaixo a realesa.»

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XXXVI

«A republica só, heroica e pura Sem esses comilões e sem tributos, É governo, que aos povos dá ventura. Vêde gregos, romanos, Solons, Brutos Que varões de coragem, de lizura!» --«Ó sô Zé, se fallou agora em brutos, Disse um d'elles, entendo em cortezia Que pedisse licença á companhia.»

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XXXVII

--«Tenho odio fatal, e tão profundo, Aos reis todos, e á sua parentella, Que juntando-me aquelles, que ha no mundo, Eu guisára uma farta cabidela, Ou então do oceano bem no fundo Armava-lhe um tremalho, uma esparrella; E se fossem tomar banhos no mar Apanhava-os, e punha-os a escalar.»

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XXXVIII

--«Em peitos lusitanos entrar póde O desamor da patria! e assim quereis Como uma carga vil, que se sacode D'esta terra expulsar os nossos reis?! Se a protecção de Deus vos não acode Como outr'ora em Ourique, inda vereis Este paiz mimoso dos heroes No mundo não valer dois caracoes.

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XXXIX

Portugal, que entre todas as nações Se distingue fiel á dynastia! Que nobre de proezas, galardões, No mundo inteiro houvera primasia! Ha de hoje off'recer os seus brazões Aos sonhos d'esta vã democracia, Que elege e acclama por soberano Este, aquelle, aquell'outro, um tal cicrano?!»

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XL

--«Fóra, fóra! acabem dynastias, Não queremos sustentar com sacrificios Quem vive dos tributos, das sangrias Que soffremos por tantos malificios; Acabem agourentas monarchias! Não queremos aturar mais supplicios: A forma de governo mais humana É sem duvida a que é republicana.»

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XLI

--«Ah! senhor, por um instante me escutae: Não posso concordar com tal aviso! Um mau rei é verdugo, mas é pae O que governa em paz, e com juizo: O arbitrio de muitos sempre cae Na desordem fatal, em prejuizo Da nação que mais cedo, ou que mais tarde Soffre a guerra civil, torpe e covarde.»

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XLII

E logo d'improviso uma matrona De face bronzeada, enorme buço, Gritou o--Viva a plebia, que desthrona Os reizes, que padecem mau influxo; É mettel-os a todos n'uma fona, Assim o declaro sem rebuço. É deitarmos a terra esses colossos: Eu sou republicana até aos ossos.

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XLIII

«Eu cá sem ser pronostica, arrenego Do tempo, que para os reizes vae bicudo; Mas elles teem olhar tão peticego, Que só vêem as cousas por canudo. Pois eu a governar punha no prego As colonias, nação, vendia tudo... E vispiré, Ignacia! co'a aragem Tingava-me... adeusinho... boa viagem.

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XLIV

A rainha, que grande presumida! Recostada no caleche toda aquella, E eu cá p'ra ganhar a triste vida Giro em trocas, baldrocas d'uma adella, Eu se andasse como ella, bem comida, Era sucia, e só qu'ria dar á trella: Onde houvesse uma tasca de bom vinho Aos amigos pagava um martellinho.

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XLV

A communa... oh! que grande regaleza! Tudo egual, e ninguem soffrendo fome! Descongela-se a neve da pobreza, O rico diz ao pobre:--Pegue, tome!-- Repartem entre si toda a riqueza, O trabalho a ninguem rala e consome, Cada um faz e diz o que quizer, E troca de marido e de mulher!

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XLVI

Co'os demos! venha a hora bemfazeja Em que gose o mudar meu duro fado; De andador posto á porta d'uma egreja Eu visse o meu João ser deputado. É bem triste o viver só da bandeja, Pedir p'ra o purgatorio, e ser penado, E clamar ao alvor d'um triste dia: Levanta-te, João... vae p'ra a bacia!.»

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XLVII

Já roucos de gritar com vozes graves, A republica acclamam grandes vivas; Nos bosques se escondiam meigas aves, Dos prados, pela bulha, fugitivas, E as fontes seus murmurios tão suaves Suspendem entretanto por esquivas; Só ao longe, no auge do sussurro, Coáxa a triste rã, orneja o burro.

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XLVIII

--«Palavra seu aquelle, eu tambem fallo, Olé se fallo, eu cá sou cidadão... Escusam de gritar, que me não callo... Não me empurrem, já disse... qual pifão! O rei no seu governo, é como um gallo, Como um gallo... oh! que grande reinação... Fóra co'a brincadeira... viva o rei! Oh! dominus vobiscum, agnus Dei.

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XLIX

Em tempos mais antigos, qual o anno Me não lembra, nem d'isso agora trato... Tivemos um pastor republicano. Que pandigo! o tal luso, o Viriato! E D. Fuas Ropinho, que magano... O rei dos valentões, Prior do Crato! Que façanhas fizeram! que prodigio Armados de cacete e bonet frigio!»

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L

--«Presidente, este typo surdo mudo Por signaes o seu voto ora pretende Declarar; é teimoso, é cabeçudo.» --«De mimicas aqui ninguem entende! Subjuguem-n'o, e ferrem-lhe um cascudo E ponham-o lá fóra, que se emende.» --Egualdade, onde estás!--protesta um gebo; --Eu tambem, diz um gago, a não concebo.--

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LI

E n'isto no casaco a assadeira Lhe fincara deveras as fateixas; Acode a socorrel-o a taberneira, Duas taponas lhe ferra nas bochechas. O peixe estremeceu na frigideira, A cabeça escondendo nas ventrechas, E o sacrista berrando pela guarda Acode o regedor n'esta bernarda.

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LII

Apitam, correm cabos de policia; O povo prorompeu n'uma assuada. O regedor procura com pericia Acalmar o tumulto, mas baldada Lhe fôra a diligencia, se a milicia Lhe não desse a provar do peixe-espada; Então o taberneiro por esperto Começou a gritar: «a tropa é perto!»

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LIII

Sentira-se uma bulha retumbante, E uma grita de vozes, arremedo De rufar de tambor, e mal toante Um pifaro tocar...--É o Macedo!-- E ei-los a correr no mesmo instante Como um bando de gamos, que de medo Fugira ao caçador, e cada qual Vae bradando:--ahi vem a mancipal!--

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LIV

Esgueiram-se em differentes direcções, Deitando pelo chão mesas e bancos; É batalha campal de provisões, De azeitonas e peixe, queijos brancos; Quebraram-se as canecas, canjirões, Em quanto vão saltando p'los barrancos; E assim se escaparam por milagre, Como foi na campanha do vinagre!

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LV

Fôra o caso que á tarde o rapasio, As lides de Mavorte simulando, Em panellas ferira som bravio, A berrar pela estrada pelejando. A tal bulha sentiram calefrio Os valentes, e foram-se safando; E assim com este logro se destroça O meeting, e soffrendo cruel troça.

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LVI

Entrementes debanda a philarmonica, Allugada p'lo grande directorio, Que devêra tocar a marcha sonica Ao romper do comicio o grão vivorio; É que o mestre afinára a diatonica Aos hurrahs e estallar do foguetorio; Mas temendo os bêmoes entram em lucta, Apressou o andante co'a batuta.

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LVII

É noute; dorme tudo, e o mesmo gaz Nos bicos dos candieiros em Lisboa; E a lua sorrateira, e contumaz, Espevita o morrão sobre a patroa: --«Inda bem; a cidade está em paz! Disse ella,--foi ligeira a macacôa. Adeus té ámanhã, que torne a ver-vos; Vou tomar chá de tilia p'ra os meus nervos.»

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LVIII

Eu tambem a dormir, em pesadellos, Vira trasgos e démos ás parelhas A subir-me nos tufos dos cabellos, Em enxames zumbindo, quaes abelhas: Acordei; era a musa dos tarellos Delambida a puchar-me p'las orelhas, A dizer-me:--«Anda, vem matar-me o bicho; Ensinei-te a chilrar como um cochicho!»

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